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Após vencer o Bragantino, Abel cita “asteriscos” e provoca Flamengo em meio à polêmica na Libertadores

A controvérsia sobre Rojo expõe o choque entre a interpretação do regulamento e a defesa dos resultados esportivos Há frases que servem para responder a u...

Após vencer o Bragantino, Abel cita “asteriscos” e provoca Flamengo em meio à polêmica na Libertadores
Após vencer o Bragantino, Abel cita “asteriscos” e provoca Flamengo em meio à polêmica na Libertadores (Foto: Reprodução)

A controvérsia sobre Rojo expõe o choque entre a interpretação do regulamento e a defesa dos resultados esportivos

Há frases que servem para responder a uma pergunta. Outras respondem a uma pergunta, provocam um adversário e ainda deixam a impressão de que o assunto continuará rendendo depois que os microfones forem desligados. Abel Ferreira escolheu a segunda categoria ao falar sobre a classificação do Palmeiras para a final da Libertadores. Durante a coletiva após o Verdão vencer o Red Bull Bragantino por 2 a 0, pelo Brasileirão. O comandante alviverde foi curto e ácido ao afirmar que a SEP estará na decisão da Libertadores “por mérito e sem asteriscos”.

O treinador português fez mais do que comemorar uma vaga. Deixou um recado para o Flamengo sem precisar pronunciar o nome do destinatário. Confesso que gosto da precisão da provocação. Abel poderia ter falado da grandeza do Palestra, da força do elenco, da campanha na Libertadores ou da dificuldade de chegar a uma decisão continental. O português preferiu um substantivo capaz de reabrir uma discussão que o futebol brasileiro aparentemente não consegue arquivar. Asterisco. Pequeno no papel, enorme quando colocado ao lado de um título ou na classificação da tabela.

“Nosso objetivo era estar na final e dia 28 estaremos lá. Nós, Palmeiras, chegamos à final pelo que fizemos em campo. Aconteça o que acontecer, dia 28, por mérito e sem asteriscos, o Palmeiras vai disputar a final da Libertadores”, declarou Abel. A mensagem é direta, mas o contexto faz o serviço de interpretação. O Verdão está classificado, enquanto o Flamengo, eliminado pelo Estudiantes nos pênaltis, tenta contestar a participação de Marcos Rojo na semifinal. A palavra escolhida pelo treinador não caiu naquela sala por acidente.

O curioso é que Abel já vinha cultivando essa imagem desde a final da Libertadores de 2025, quando o Flamengo venceu o Palmeiras por 1 a 0. Na ocasião, o português questionou a arbitragem pela não expulsão de Erick Pulgar após uma entrada em Bruno Fuchs e sustentou que os títulos conquistados pelo Alviverde não tinham asteriscos. A discussão voltou a aparecer em dezembro daquele ano, quando Abel comparou o episódio à expulsão de Piquerez em outra partida. Portanto, não estamos diante de uma metáfora recém-descoberta, mas de uma expressão que ganhou endereço, histórico e, pelo visto, disposição para novas temporadas.

Como o Flamengo se posicionou sobre a polêmica com o Estudiantes?

Desta vez, porém, o cenário oferece uma ironia adicional. O Flamengo divulgou uma nota oficial neste sábado (24) para explicar por que acionou a Conmebol no caso Rojo. O clube sustenta que não iniciou o procedimento, que foi incluído no processo pelo próprio Estudiantes e que apresentou a reclamação dentro do prazo previsto no regulamento. Também afirma que a Conmebol havia recusado a inscrição do defensor antes da partida e que o tribunal arbitral não garantiu ao clube argentino imunidade a eventuais consequências esportivas. A diretoria rubro-negra pede que o caso seja decidido antes da final.

Há um argumento jurídico que merece ser tratado com seriedade. O Flamengo alega que o regulamento deve valer igualmente para todos e aponta o precedente do Santos, eliminado da Libertadores de 2018 após uma punição relacionada à escalação irregular de um jogador. A participação de Rojo foi autorizada provisoriamente após recurso do Estudiantes, e a controvérsia sobre as consequências dessa decisão ainda depende de análise. Até que exista um desfecho, qualquer certeza sobre a punição ou a mudança de classificação será mais entusiasmo clubístico do que informação.

Enquanto a Gávea reclama, o Palestra se diverte

É justamente por isso que a nota do Flamengo e a frase de Abel podem coexistir sem que uma anule a outra. O clube carioca tem o direito de defender sua interpretação do regulamento. O treinador palmeirense, por sua vez, tem todo o direito de reivindicar a classificação conquistada por sua equipe. A diferença está na maneira como cada um constrói sua narrativa. O Flamengo fala em segurança jurídica e igualdade de regras; Abel fala em mérito esportivo e ausência de asteriscos. Um escolhe o idioma dos tribunais. O outro, o das provocações que fazem o futebol sobreviver muito além dos 90 minutos.

Aqui entra uma das peculiaridades mais divertidas do nosso futebol: todo mundo diz que a decisão precisa acontecer dentro de campo, mas ninguém parece disposto a deixar de consultar o regulamento quando a bola já não oferece uma solução favorável. Não considero isso necessariamente uma contradição. Se há suspeita de descumprimento das regras, os mecanismos de contestação existem para ser utilizados.

Abel conhece bem esse ambiente. Seu discurso raramente se limita ao placar, e suas coletivas frequentemente carregam uma segunda partida, disputada no terreno da memória, da interpretação e da disputa por reconhecimento. O Gajo sabe que uma frase bem escolhida pode durar mais do que a análise de uma substituição ou a discussão sobre o posicionamento de um lateral. Ao dizer que o Palmeiras chegará à final sem asteriscos, ele transforma a classificação em uma afirmação de identidade. E ainda devolve ao rival uma expressão que não deixa de ser uma alfinetada implícita.

Abel surfou na onda da reclamação carioca e enalteceu o Palmeiras

Talvez a melhor parte da declaração de Abel esteja naquilo que ela revela sobre a necessidade de contar a própria história antes que alguém a conte por você. O Verdão quer chegar à decisão com a classificação esportiva como argumento central. O Flamengo quer demonstrar que sua reclamação não é uma tentativa improvisada de escapar da eliminação, mas uma contestação que considera amparada pelo regulamento. Enquanto isso, os torcedores transformam cada frase em munição, e os dirigentes descobrem que uma nota oficial pode prolongar uma semifinal que o calendário já encerrou.

No dia 28 de novembro, quando a bola rolar para a final da Libertadores, o Palestra terá a oportunidade de defender em campo a vaga que conquistou. Até lá, a discussão sobre Rojo seguirá seu caminho institucional, e o Flamengo terá de aguardar uma decisão que não pode ser antecipada por indignação, provocação ou confiança excessiva. Abel, ao menos, já deixou sua versão registrada. E escolheu fazê-lo com uma palavra que cabe numa nota de rodapé, mas tem tamanho suficiente para ocupar uma coletiva inteira.

No futebol sul-americano, às vezes nem a ausência de asteriscos passa sem explicação. É preciso anunciá-la, defendê-la e, se possível, repeti-la diante dos microfones. Abel fez exatamente isso. Agora, resta saber se a final será lembrada pelo futebol que Palmeiras e Flamengo — caso o processo não altere o cenário — protagonizarem ou se continuaremos discutindo o que deveria estar escrito nas letras miúdas. A bola, como sempre, terá a chance de dar a última resposta. O problema é que, por aqui, quase nunca deixam que ela seja a única.